Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil

03/07/2017 22:59

Em 7 de novembro de 1831, foi promulgada a lei que proibia a importação de escravos para o país e punia todos os envolvidos na atividade. O extenso contrabando das duas décadas seguintes fez pensar que a lei fosse “para inglês ver”.

Em Africanos livres, Beatriz Mamigonian trata da abolição do tráfico de escravos no Brasil desde sua proibição em 1808 pela Grã-Bretanha e dos tratados que garantiram a liberdade dos africanos resgatados dos navios negreiros. A lei de 1831 é o eixo narrativo do livro, ao qual se imbricam a análise da experiência dos africanos livres, de sua administração pelo governo imperial e dos efeitos sociais e políticos do contrabando. Os acordos bilaterais e a legislação nacional determinavam que esses africanos fossem submetidos durante catorze anos a um regime de trabalho forçado, período em que seriam supostamente educados para a liberdade, mas que durou muito além do prescrito.

Um dos temas centrais deste livro é a polêmica campanha britânica pela liberdade dos africanos livres e daqueles importados mantidos como escravos desde 1831. A autora revisita o contexto da Lei Eusébio de Queirós (1850) e a “Questão Christie”, episódio que resultou no rompimento de relações diplomáticas entre Brasil e Grã-Bretanha entre 1863 e 1865. Nos dois momentos, a campanha britânica ganhou a opinião pública, incluindo negros livres, libertos e escravos. Diante das ameaças à soberania nacional, o governo brasileiro teve que demonstrar coesão institucional e política para conter as pressões abolicionistas e repactuar com os senhores de escravos os termos para a manutenção da escravidão.

Mamigonian reescreve capítulos de história política e diplomática brasileira a partir do problema da proibição do tráfico, ao incorporar à trama as experiências dos africanos livres e daqueles ilegalmente escravizados. Africanos livres permite reconstruir a importância da lei de 1831 para a política imperial e as relações exteriores, assim como para a resistência escrava e o abolicionismo radical.

(São Paulo: Companhia das Letras, 2017) link para catálogo da editora

Notícias sobre o lançamento e entrevistas:

Proibição do tráfico de escravos no século XIX ilustra cinismo e racismo na formação social do Brasil – Cesar Baima – O Globo, 12/08/2017

Livro sobre ‘escravos livres’ é tão forte que obriga a olhar para o presente – Elio Gaspari – Folha de São Paulo, 16/08/2017

ou aqui, aberto.

O grande golpe da escravidão – João Prata – O Estado de São Paulo (Caderno Aliás), 19/08/2017

O Brasil esteve na vanguarda da discriminação (entrevista para Luis Antonio Giron) – IstoÉ, 02/09/2017